Os corvos
E os corvos voltaram à cidade, pois está na altura deles. Está na altura de nos mergulharem na sua negridão, quer queiramos quer não, e está na altura de nos amarrarem os narizes com o seu cheiro acre e a podridão, os nossos ouvidos já perdidos em cem gritos iguais e repetitivos e cegos e obsessivos. E os corvos que voam sobre nós falam da aventura e do momento, da diversão e da inocência, pois só se é corvo uma vez e há que aproveitar a liberdade das asas. E os demais encolhem os ombros porque até há-de ser verdade, mas no fundo todos sabem, e as ruas sabem, e as ambulâncias sabem, e as escolas sabem, e os autocarros sabem, e a torre sabe; todos sabem que os corvos são uma praga imortal que não limpa o que suja e não se desculpa do que fez, porque, ei, só se é corvo uma vez.
Quando eles dizem que o querem, não acho que o realmente queiram. Ou, pelo menos, querê-lo pelo que ele é, porque ele não é o que as pessoas querem, embora na televisão e nos livros e nas novelas o seja. Não digo sequer que seja pior, mas diferente é-o, de certeza. Porque o que vemos é uma grande nuvem cor-de-rosa coberta de mel, e isso não existe. O que existe são montanhas russas, reais, com a pintura a descascar e parafusos a fugir do sítio.
E talvez um dia eles dêem por eles próprios em frente a alguém que menos não se poderia assemelhar a um cavaleiro andante ou uma princesa glamorosa, mas sim em frente a uma criança, pequena, que chora pela mãe, e se apercebam que não há nada a fazer, que não há feitiços de qualquer bruxa boa que levantem aquela criatura miserável do chão e que transformem o nosso calor no calor maternal. Porque só ela sabe a solução para tudo, e nós nada. Nós somos os irmãos e os primos e os mirones que olham para as lágrimas e para a mão que as secam, vazios, imóveis, inúteis. E então talvez percebam que aquelas coisas que os grandes apaixonados da literatura sentem não quebram, na verdade, barreiras, nem chegam a lado nenhum, se não puderem. E talvez percebam que embora desejável, esse ardor de ser não é fácil, nem sempre, porque há momentos e há dias em que nada se pode fazer. E custa, e dói-nos e é horrível, mas é assim.
O monstro dos olhos verdes
É engraçado que começa sempre por um burburinho, um quase nada, e, quando damos por ele, temos uma tristeza feia espalhada pelas mãos que não sai com nada, nem com álcool. E não é por serem raparigas, é por serem pessoas, iguais a nós, escolhidas em vez de nós. E se racionalmente o consentimos, os nossos olhos baços não, o nosso palpitar amargurado não. E é uma hipocrisia que dói por todo o lado, porque, por um lado, estamos, sim, felizes que eles estejam felizes, mas por que é por outro, mais negro lado, nos dá a louca vontade de cair da janela mais próxima? E se calhar a morte nem doeria, talvez, e seria só o silêncio, surdo e branco e eterno.
Talvez não esteja certo este perverso jogo que jogamos, quando lhes sorris histórias descabidas que só da tua boca poderiam parecer verdade, quando finjo não saber os segredos que sei, a medo que descubram. Mas os nossos olhares refulgem quando se tocam proibidos no ar, e no meio da comoção ninguém nota na nossa comoção, de nos vermos, de sermos, assim, tão perto e tão longe, e tão intensamente.
E embora assim sempre quedemos, em paralisada admiração suspensa e tão distante, é melhor não poder tocar a tua pele do que a tua saudade; e embora os meus dias já sejam mais solarengos, não há hora que passe em que não sinta aquele buraco enorme e negro e de arestas afiadas que me trespassa a meio e a fundo. E se precisares de mim fora da figura, lá estarei, mas tu continuarás para sempre na minha.
I find no interest in empty conversations and questions that remain untruthfully answered. I long for the silence that will drown their incessant screeching. For I frankly see no point in what these simians call socialising, mingling or even talking. I want no part in their idle chatter, their superfluous words. I am deeply sorry to those who I offend with my ‘antisocial behaviour’, my ravenous need to be alone. It is not that I am incapable of doing it normally, actual communication, it is just that I choose not to in their insufferable presence.
O susto
E o susto de me pegar as mãos não foi mais do que a surpresa, a genuína admiração de que alguma vez pudesse acontecer, alguém tomar-me assim de assalto e eu, despercebida, deixar. E olhou-me com uns olhos que derretiam, que sabiam doce demais - uns olhos que assustavam.
E se então me acusara de frieza, mais tarde traria de volta este olhar caramelizado, perguntando-me, sincero, se eu lia ali o que ele queria que eu lesse, e eu, a medo, a absoluto terror de aqueles olhos serem infinitamente para mim, encolhi os ombros, e ele suspirou.
E no estômago senti o que ele sentia nos olhos, e arrependi-me de não lho dizer.
Hoje o dia não é chuvoso, e talvez compreenda mais do que o costume. Porque eu inquietei por muito sol e nevoeiro que talvez não me enquadrasse neste quadro, mas hoje sinto-me bem. E dos mesmos espectros solitários me acompanho, mas hoje não importa.
Será o calor que me sobe à cabeça ao olhar para estas, outras cabeças, ocas, decerto, e sentir-me, por uma vez, bem? Se bem que bem não é bem a palavra, pois este sentimento que me toma não possui a doce euforia da felicidade; consigo apenas descrevê-lo como a aliviante ausência da miséria.
Guardarei o hoje.
Ó mar
Eu vi-te, mas foi de passagem, porque nesta viagem tudo é, de passagem, e agora apaixonei-me, ajuda-me, pois apaixonei-me por ti e não sei para onde fugir, agora que tu decidiste fugir.
Eu posso só ser um grão de areia, minúsculo em todo o meu ser, criatura sem músculo para se ver, mas não é como se não sentisse quando as tuas ondas batem em mim, frias ao raiar da manhã, às vezes com força, de zangadas, e depois mais calmas, ao entardecer. Porque já há muito que conheço o teu mar, e persigo-te por todas as praias, quem sabe em vão, tentando ao máximo aproveitar o teu sal. Não sou como elas, que só chegam já meio dia passou, já o sol brilha no ar, já o vento se respira; eu estou cá sempre, ao contrário de tuas ambulantes visitantes, que existem apenas naquele segundo em que o relógio bate. Eu estou cá sempre e tu nem notas; e ninguém nota, aliás, porque sempre vêm por ti.
Eu sou só um grão de areia, e talvez sejas demais para mim, todo esse oceano de ser, todo esse azul que à noite se esbate com o horizonte - e eu quero tudo, tudo isso! E não é para me banhar, embora encontre a tua água agradável. É para em ti existir, parasita desejado, para sempre envolto na humidade de teu reconhecimento, e, quem sabe, um dia, amor.
O olhar
Ela viu o olhar no seu olhar, aquele olhar. O olhar que nunca a deixou respirar até ao fundo, porque doía. E doía agora ainda mais, ver esse olhar ali, num olhar muito diferente; no olhar que outrora lhe abrira o peito para a deixar respirar fundo. Agora, contaminado.
E então as suas palavras, que persistiam doces e calmas, tornaram-se numa banda sonora amorfa e ridícula, como uma cómica corneta que falava nadas incompreensíveis. Pois ela já não se encontrava ali, mas longe. No fundo de qualquer coisa funda, submersa em suores frios que transformavam o real numa ondulação indeterminada. E os seus ouvidos eram então incapazes de ouvir tais barbaridades vindas de um sorriso.
Os pássaros
De olhos abertos, ele então confessou-me que meus pensamentos irrequietos talvez fossem verdade; que assim como seu sangue era rubro, talvez a minha perfeição fosse só porque eu era sua. Que talvez a minha beleza fosse tal por seu coração bater por mim e meu sorriso inigualável a favor de nosso compromisso.
E talvez parte de mim se encontrasse então no chão, junto aos pássaros caídos de uma guerra própria. Mas assegurou-me também, ele, que talvez nada disso importasse (que o amor exaltasse as minhas feições, ou minhas virtudes). Porque a mentira que seus olhos criavam, ele via como realidade.
E, se era feliz, se era todo, que importava?
A zeros
Zero. Para sempre essa ausência numérica; zero.
Porque me deixas assim, meu amor, neste vazio tamanho de palavras? Porque me deixas, se depois te arrependes? Não fazes qualquer sentido, tu e os teus zeros. Depois chegas, ao meu ouvido murmurando bêbadas doçuras - não as quero, prefiro o zero: ao menos na sua insipidez há uma ambiguidade dolorosamente desejável; ao menos nele posso imaginar a cobiça que por mim ainda sentes.
E minha cabeça escorre azul na sua solidão atrapalhada, pensando em ti, rodeado de uma diversão imensa que nunca em mim coube. Desculpa-me teres de a procurar longe, longe daqui. A felicidade que em sorrisos desfeitos alegas que te trago agora não enche a cavidade que ficou da tua outra vida, e embora haja várias pessoas dentro de mim, embora esfole a minha flagrante falta de talento na cozinha, faltam-te os amigos e a bebida. As saídas à noite, a dança, o social - privei-te de tanto, mas sempre me asseguras, com um beijo de precisão milimétrica, que não, que estas fantasias que correm, soltas, pela minha cabeça, não passam disso, de fantasias: factícias, infundadas; a cair num ridículo que é, em mim, amoroso.
Carta a um nome que já não me diz nada
Olhei para a gelada aparição do teu nome no pequeno ecrã da minha vida social portátil, iluminado pelo negrume das memórias que eu tenho e finjo que não tenho. Porque o teu falar para mim revela apenas a cómoda e cobarde falsidade de alguém que valoriza os seus interesses pessoais apenas, a sombra dos olhos vazios de uma pessoa que conhece a solidão e prometeu nunca mais ter de a sentir. Podia jurar que simpatizo - afinal, pode ser que até corresponda à verdade -, que percebo de onde vem essa maneira de ser tão flexível, tão cheia de uma elasticidade trazida a ti por todos os motivos errados, mas, no fundo de um poço sem ele, repleto de todas as recordações da tua cara, não encontro senão desprezo.
E não tenho a certeza de estar a ser justa, por vezes tentando convencer toda a maquinaria habitante de tão confusa cabeça que tu não és assim tão má pessoa. Depois lembro-me, desprevenida ou de propósito, não sei dizer; começo a deixar de entender se funciono alimentada das suspeições ansiosas de outras pessoas, tão fáceis de mastigar, e não pelas minhas próprias, longe do meu pensar inquieto, criativo e inseguro. Lembro-me que a tua amizade foi, ou pareceu, há muitos dias, meses e anos, algo de bom. Algo que o vento trouxe, de despropositada rajada, e que aparentava uma simplicidade que eu, na pouco orgulhosa altura, desejava ardentemente.
É aí que começo a pensar que talvez seja eu quem aqui é fantasma de uma mentira pegada e medonha - fui eu quem, no início de tudo, aceitei a tua mão porque lá estava e talvez, admito agora com vergonha e esquecimento, apenas por isso. Era fraca a minha cor, o meu olhar e os meus princípios; respondi à pergunta por pairar no ar tão perdida, por precisar de lhe responder. Nunca pensei que me envolveria num tormento de alma do qual só agora percebo as verdadeiras consequências e sua enorme extensão.
Se há aqui culpado, contudo, não há um único dedo a apontar, nem um responsável só. As tuas razões para articular a primeira conversa não foram elas também de pura intenção e arrependo-me, por ventura, de te ter estendido a trela, mas, oh!, parecia um acordo irrecusável: todos os benefícios e nada de responsabilidade real. Estava enganada - redondamente. E agora sofro o chocar bruto das ondas, não mais acreditando na vã esperança de nelas flutuar pacífica e morosamente. Recordo a meus olhos cansados que esta confissão não seria outrora tão leve de coração, pois a minha solidão já não está só e de outra me acompanho a todo o cair do sol.
Posso apenas concluir, de todo este tremor de terra à espera de acontecer e suas devastantes consequências, que de dois vermes nojentos nos tratamos e, embora fosse agradável considerar naquele tempo de ingenuidade cega que nos merecêssemos uma à outra, confirmo hoje que o melhor caminho é tomarmos cada uma o seu. Não rejeito que haja arrependimentos ou remorsos, porque os há em quantidade e variedade grande; saio apenas da escancarada e quebrada porta desta amizade passageira com a certeza que falhámos em conjunto e que a culpa não me pesa só a mim. Talvez, como eu, encontres um conforto teu neste pensamento egoísta e, caso seja esse o caso, desejo-te sucesso, onde quer que o procures e encontres, e que essa podridão de ser que tanta repulsa me trouxe à cara nunca cesse de importunar novos contactos.
Adeus, cabra.