Os corvos

E os corvos voltaram à cidade, pois está na altura deles. Está na altura de nos mergulharem na sua negridão, quer queiramos quer não, e está na altura de nos amarrarem os narizes com o seu cheiro acre e a podridão, os nossos ouvidos já perdidos em cem gritos iguais e repetitivos e cegos e obsessivos. E os corvos que voam sobre nós falam da aventura e do momento, da diversão e da inocência, pois só se é corvo uma vez e há que aproveitar a liberdade das asas. E os demais encolhem os ombros porque até há-de ser verdade, mas no fundo todos sabem, e as ruas sabem, e as ambulâncias sabem, e as escolas sabem, e os autocarros sabem, e a torre sabe; todos sabem que os corvos são uma praga imortal que não limpa o que suja e não se desculpa do que fez, porque, ei, só se é corvo uma vez.

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2 weeks ago

Quando eles dizem que o querem, não acho que o realmente queiram. Ou, pelo menos, querê-lo pelo que ele é, porque ele não é o que as pessoas querem, embora na televisão e nos livros e nas novelas o seja. Não digo sequer que seja pior, mas diferente é-o, de certeza. Porque o que vemos é uma grande nuvem cor-de-rosa coberta de mel, e isso não existe. O que existe são montanhas russas, reais, com a pintura a descascar e parafusos a fugir do sítio.
E talvez um dia eles dêem por eles próprios em frente a alguém que menos não se poderia assemelhar a um cavaleiro andante ou uma princesa glamorosa, mas sim em frente a uma criança, pequena, que chora pela mãe, e se apercebam que não há nada a fazer, que não há feitiços de qualquer bruxa boa que levantem aquela criatura miserável do chão e que transformem o nosso calor no calor maternal. Porque só ela sabe a solução para tudo, e nós nada. Nós somos os irmãos e os primos e os mirones que olham para as lágrimas e para a mão que as secam, vazios, imóveis, inúteis. E então talvez percebam que aquelas coisas que os grandes apaixonados da literatura sentem não quebram, na verdade, barreiras, nem chegam a lado nenhum, se não puderem. E talvez percebam que embora desejável, esse ardor de ser não é fácil, nem sempre, porque há momentos e há dias em que nada se pode fazer. E custa, e dói-nos e é horrível, mas é assim.

O monstro dos olhos verdes

É engraçado que começa sempre por um burburinho, um quase nada, e, quando damos por ele, temos uma tristeza feia espalhada pelas mãos que não sai com nada, nem com álcool. E não é por serem raparigas, é por serem pessoas, iguais a nós, escolhidas em vez de nós. E se racionalmente o consentimos, os nossos olhos baços não, o nosso palpitar amargurado não. E é uma hipocrisia que dói por todo o lado, porque, por um lado, estamos, sim, felizes que eles estejam felizes, mas por que é por outro, mais negro lado, nos dá a louca vontade de cair da janela mais próxima? E se calhar a morte nem doeria, talvez, e seria só o silêncio, surdo e branco e eterno.

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1 month ago

Talvez não esteja certo este perverso jogo que jogamos, quando lhes sorris histórias descabidas que só da tua boca poderiam parecer verdade, quando finjo não saber os segredos que sei, a medo que descubram. Mas os nossos olhares refulgem quando se tocam proibidos no ar, e no meio da comoção ninguém nota na nossa comoção, de nos vermos, de sermos, assim, tão perto e tão longe, e tão intensamente.
E embora assim sempre quedemos, em paralisada admiração suspensa e tão distante, é melhor não poder tocar a tua pele do que a tua saudade; e embora os meus dias já sejam mais solarengos, não há hora que passe em que não sinta aquele buraco enorme e negro e de arestas afiadas que me trespassa a meio e a fundo. E se precisares de mim fora da figura, lá estarei, mas tu continuarás para sempre na minha.

I find no interest in empty conversations and questions that remain untruthfully answered. I long for the silence that will drown their incessant screeching. For I frankly see no point in what these simians call socialising, mingling or even talking. I want no part in their idle chatter, their superfluous words. I am deeply sorry to those who I offend with my ‘antisocial behaviour’, my ravenous need to be alone. It is not that I am incapable of doing it normally, actual communication, it is just that I choose not to in their insufferable presence.

O susto

E o susto de me pegar as mãos não foi mais do que a surpresa, a genuína admiração de que alguma vez pudesse acontecer, alguém tomar-me assim de assalto e eu, despercebida, deixar. E olhou-me com uns olhos que derretiam, que sabiam doce demais - uns olhos que assustavam.
E se então me acusara de frieza, mais tarde traria de volta este olhar caramelizado, perguntando-me, sincero, se eu lia ali o que ele queria que eu lesse, e eu, a medo, a absoluto terror de aqueles olhos serem infinitamente para mim, encolhi os ombros, e ele suspirou.
E no estômago senti o que ele sentia nos olhos, e arrependi-me de não lho dizer.

Hoje o dia não é chuvoso, e talvez compreenda mais do que o costume. Porque eu inquietei por muito sol e nevoeiro que talvez não me enquadrasse neste quadro, mas hoje sinto-me bem. E dos mesmos espectros solitários me acompanho, mas hoje não importa.

Será o calor que me sobe à cabeça ao olhar para estas, outras cabeças, ocas, decerto, e sentir-me, por uma vez, bem? Se bem que bem não é bem a palavra, pois este sentimento que me toma não possui a doce euforia da felicidade; consigo apenas descrevê-lo como a aliviante ausência da miséria.

Guardarei o hoje.

A tarde desceu a rua, o sol banhando-lhe os cabelos de um quase-verão friorento. Os pés saltavam-lhe vagarosos sobre a calçada, e nos seus olhos levava a tristeza de um pôr-do-sol em tons de púrpura.

Ó mar

Eu vi-te, mas foi de passagem, porque nesta viagem tudo é, de passagem, e agora apaixonei-me, ajuda-me, pois apaixonei-me por ti e não sei para onde fugir, agora que tu decidiste fugir.

Eu posso só ser um grão de areia, minúsculo em todo o meu ser, criatura sem músculo para se ver, mas não é como se não sentisse quando as tuas ondas batem em mim, frias ao raiar da manhã, às vezes com força, de zangadas, e depois mais calmas, ao entardecer. Porque já há muito que conheço o teu mar, e persigo-te por todas as praias, quem sabe em vão, tentando ao máximo aproveitar o teu sal. Não sou como elas, que só chegam já meio dia passou, já o sol brilha no ar, já o vento se respira; eu estou cá sempre, ao contrário de tuas ambulantes visitantes, que existem apenas naquele segundo em que o relógio bate. Eu estou cá sempre e tu nem notas; e ninguém nota, aliás, porque sempre vêm por ti.

Eu sou só um grão de areia, e talvez sejas demais para mim, todo esse oceano de ser, todo esse azul que à noite se esbate com o horizonte -  e eu quero tudo, tudo isso! E não é para me banhar, embora encontre a tua água agradável. É para em ti existir, parasita desejado, para sempre envolto na humidade de teu reconhecimento, e, quem sabe, um dia, amor.

O olhar

Ela viu o olhar no seu olhar, aquele olhar. O olhar que nunca a deixou respirar até ao fundo, porque doía. E doía agora ainda mais, ver esse olhar ali, num olhar muito diferente; no olhar que outrora lhe abrira o peito para a deixar respirar fundo. Agora, contaminado.

E então as suas palavras, que persistiam doces e calmas, tornaram-se numa banda sonora amorfa e ridícula, como uma cómica corneta que falava nadas incompreensíveis. Pois ela já não se encontrava ali, mas longe. No fundo de qualquer coisa funda, submersa em suores frios que transformavam o real numa ondulação indeterminada. E os seus ouvidos eram então incapazes de ouvir tais barbaridades vindas de um sorriso.

Os pássaros

De olhos abertos, ele então confessou-me que meus pensamentos irrequietos talvez fossem verdade; que assim como seu sangue era rubro, talvez a minha perfeição fosse só porque eu era sua. Que talvez a minha beleza fosse tal por seu coração bater por mim e meu sorriso inigualável a favor de nosso compromisso.
E talvez parte de mim se encontrasse então no chão, junto aos pássaros caídos de uma guerra própria. Mas assegurou-me também, ele, que talvez nada disso importasse (que o amor exaltasse as minhas feições, ou minhas virtudes). Porque a mentira que seus olhos criavam, ele via como realidade.
E, se era feliz, se era todo, que importava?

A zeros

Zero. Para sempre essa ausência numérica; zero.
Porque me deixas assim, meu amor, neste vazio tamanho de palavras? Porque me deixas, se depois te arrependes? Não fazes qualquer sentido, tu e os teus zeros. Depois chegas, ao meu ouvido murmurando bêbadas doçuras - não as quero, prefiro o zero: ao menos na sua insipidez há uma ambiguidade dolorosamente desejável; ao menos nele posso imaginar a cobiça que por mim ainda sentes.
E minha cabeça escorre azul na sua solidão atrapalhada, pensando em ti, rodeado de uma diversão imensa que nunca em mim coube. Desculpa-me teres de a procurar longe, longe daqui. A felicidade que em sorrisos desfeitos alegas que te trago agora não enche a cavidade que ficou da tua outra vida, e embora haja várias pessoas dentro de mim, embora esfole a minha flagrante falta de talento na cozinha, faltam-te os amigos e a bebida. As saídas à noite, a dança, o social - privei-te de tanto, mas sempre me asseguras, com um beijo de precisão milimétrica, que não, que estas fantasias que correm, soltas, pela minha cabeça, não passam disso, de fantasias: factícias, infundadas; a cair num ridículo que é, em mim, amoroso.

Carta a um nome que já não me diz nada

Olhei para a gelada aparição do teu nome no pequeno ecrã da minha vida social portátil, iluminado pelo negrume das memórias que eu tenho e finjo que não tenho. Porque o teu falar para mim revela apenas a cómoda e cobarde falsidade de alguém que valoriza os seus interesses pessoais apenas, a sombra dos olhos vazios de uma pessoa que conhece a solidão e prometeu nunca mais ter de a sentir. Podia jurar que simpatizo - afinal, pode ser que até corresponda à verdade -, que percebo de onde vem essa maneira de ser tão flexível, tão cheia de uma elasticidade trazida a ti por todos os motivos errados, mas, no fundo de um poço sem ele, repleto de todas as recordações da tua cara, não encontro senão desprezo.

E não tenho a certeza de estar a ser justa, por vezes tentando convencer toda a maquinaria habitante de tão confusa cabeça que tu não és assim tão má pessoa. Depois lembro-me, desprevenida ou de propósito, não sei dizer; começo a deixar de entender se funciono alimentada das suspeições ansiosas de outras pessoas, tão fáceis de mastigar, e não pelas minhas próprias, longe do meu pensar inquieto, criativo e inseguro. Lembro-me que a tua amizade foi, ou pareceu, há muitos dias, meses e anos, algo de bom. Algo que o vento trouxe, de despropositada rajada, e que aparentava uma simplicidade que eu, na pouco orgulhosa altura, desejava ardentemente.

É aí que começo a pensar que talvez seja eu quem aqui é fantasma de uma mentira pegada e medonha - fui eu quem, no início de tudo, aceitei a tua mão porque lá estava e talvez, admito agora com vergonha e esquecimento, apenas por isso. Era fraca a minha cor, o meu olhar e os meus princípios; respondi à pergunta por pairar no ar tão perdida, por precisar de lhe responder. Nunca pensei que me envolveria num tormento de alma do qual só agora percebo as verdadeiras consequências e sua enorme extensão.

Se há aqui culpado, contudo, não há um único dedo a apontar, nem um responsável só. As tuas razões para articular a primeira conversa não foram elas também de pura intenção e arrependo-me, por ventura, de te ter estendido a trela, mas, oh!, parecia um acordo irrecusável: todos os benefícios e nada de responsabilidade real. Estava enganada - redondamente. E agora sofro o chocar bruto das ondas, não mais acreditando na vã esperança de nelas flutuar pacífica e morosamente. Recordo a meus olhos cansados que esta confissão não seria outrora tão leve de coração, pois a minha solidão já não está só e de outra me acompanho a todo o cair do sol.

Posso apenas concluir, de todo este tremor de terra à espera de acontecer e suas devastantes consequências, que de dois vermes nojentos nos tratamos e, embora fosse agradável considerar naquele tempo de ingenuidade cega que nos merecêssemos uma à outra, confirmo hoje que o melhor caminho é tomarmos cada uma o seu. Não rejeito que haja arrependimentos ou remorsos, porque os há em quantidade e variedade grande; saio apenas da escancarada e quebrada porta desta amizade passageira com a certeza que falhámos em conjunto e que a culpa não me pesa só a mim. Talvez, como eu, encontres um conforto teu neste pensamento egoísta e, caso seja esse o caso, desejo-te sucesso, onde quer que o procures e encontres, e que essa podridão de ser que tanta repulsa me trouxe à cara nunca cesse de importunar novos contactos.

Adeus, cabra.

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